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[review] ‘Dark Legion’ te coloca dentro de um FPS de PS2 cheio de bugs

Legítimos first-person shooters (FPS) ainda são uma raridade no Playstation VR, território dominado por wave shooters e experiências onde sua liberdade de movimento é limitada. Portanto, a chegada de games como ‘Dark Legion’, com cerca de 3 horas de duração e liberdade total de movimento, é motivo de empolgação entre os jogadores, ainda mais se considerarmos o baixo preço de lançamento do game – pouco mais de R$ 30 ou US$ 9,99). No entanto, uma série de limitações técnicas jogam por terra qualquer chance de o jogo ser levado a sério. A não ser que você curta o gênero trash. Aí é outra história.

Aliás, história é o que o jogo não tem. Depois de um tutorial que consegue ser chato e incompleto ao mesmo tempo, você surge dentro de uma nave espacial na companhia de sua assistente de formas voluptuosas e trajes desnecessariamente sexualizados. Ocorre uma pane na nave, causando um tremor responsável pela melhor cena do jogo: a assistente fica se chacoalhando feito uma barata tonta e depois solta umas frases sem mexer os lábios (!). A atuação e a movimentação da moça são tão robóticas que até agora estou em dúvida se se trata de um andróide. Então, vocês descem da nave em um planeta desconhecido e começa sua missão: encontrar uma peça pra tirar a nave do prego.

Enquanto a assistente permanece na nave, você parte nessa jornada sem nenhuma arma sequer, acompanhado de um robô que não fala, mas faz gestos (às vezes obscenos – sim, robozinho, eu vi você “sarrando” no ar) e é responsável pelos barulhos mais irritantes da história dos videogames. A principal função dele é te mostrar o caminho a seguir, mas às vezes ele se perde mais do que você. Ah, ele tem a “habilidade especial” de se meter na sua frente e te atrapalhar quando você está trocando tiros com os inimigos. O tempo todo.

Como você é um cara desprevenido e saiu da sua nave em um planeta desconhecido e hostil sem nenhuma arma sequer, vai encontrar sua primeira pistola em um baú, disposto comodamente próximo à nave. Aliás, vai encontrar baús espalhados por todos os cantos, contendo novas armas, munições e uma seringa que serve pra você recuperar vida. O arsenal inclui um fuzil automático, sniper, bazuca, granadas, explosivos e uma besta (que no caso não é você por estar jogando essa “trashzera”).

No caminho até a peça da nave (“spoiler alert”: que você não vai encontrar), você vai se deparar com uma grande variedade inimigos, incluindo insetos, besouros gigantes, monstros, soldados e bruxos (!). Também vai achar tablets espalhados por aí, ao lado de esqueletos humanos, que tentam contar o resto da história do jogo.

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Sua assistente é mais uma personagem sexualizada no mundo dos games. Calada, ela é perfeita.

E O TIROTEIO?

Como se trata de um FPS, era de se esperar que o tiroteio fosse a melhor parte de ‘Dark Legion’. Mas não é bem assim. A troca de tiros não funciona bem porque você não tem muito onde se esconder e, quando tem, você pega dano do mesmo jeito, mesmo atrás de paredes. O jeito é partir pra cima dos inimigos com tudo e usar as seringas de vida sempre que precisar (elas aparecem aos montes e acumulei mais de 80 até o final do jogo).

Falando nisso, quando seu personagem pega dano, ele solta a sua única fala durante o jogo todo: “Ouch!”. Imagina um jogo em que o cara leva bala e grita “Ai!”? Eu só consigo lembrar daquele filme tosco do YouTube com a mulher morrendo baleada e se estirando na parede. Alguns soldados inimigos usam escudos e você pode usá-los também depois de matá-los. Mas não recomendo: depois de um tempo, você simplesmente não consegue mais largá-los.

Outros inimigos não pegam dano de armas comuns. Você precisa atirar neles com a besta, cuja mira requer um certo treino. Completando seu arsenal, conforme você vai matando inimigos você enche uma barra de magia, que aparece na mão direita. Ao pressionar a “bola”, você pode atirar várias bolas de fogo nos inimigos, durante um certo tempo. Mas essa magia demora demais para carregar.

Ao final de cada fase, você enfrenta um boss, que também são todos desprovidos de inteligência. Mas adoram rir e fazer barulhos imitando o Darth Vader. Uma delas some com um efeito especial nulo, lembrando episódios do ‘Chapolim Colorado’. Pra piorar, dois desses bosses são reaproveitados em fases seguintes. O único que não é figurinha repetida é o boss final (o “Esqueleto” da capa do jogo), que infelizmente promete voltar para se vingar. Será que teremos uma continuação? Por favor, não!

A “inteligência artificial” dos inimigos (se é que podemos chamar assim) é bem básica. Os monstros vão partir com tudo na sua direção, enquanto os soldados ficam atirando a esmo, sem se preocupar muito em se cobrir. Às vezes, eles nem percebem que você está atrás deles e continuam atirando aleatoriamente. Ou andando em direção à parede, fazendo coisas absurdas. Alguns inimigos também podem se prender uns aos outros, deixando-os vulneráveis às suas balas. Como se pode ver, a dificuldade nesse jogo veio no nível “picolé”.

Apesar do vasto arsenal, você pode fechar o jogo usando só as pistolas e as bestas (que têm munição infinita). Coloco no plural porque você pode clonar magicamente qualquer arma que estiver segurando, mas é claro que o jogo não vai se dar ao trabalho de te ensinar isso. O tutorial, aliás, também não te mostra que você tem um mapa, que você acessa segurando o botão X na mão esquerda dos PS Moves (obrigado, de nada). Fato curioso: durante esse “tutorial”, a assistente te chama o tempo todo de “rookie” (novato), que é pra te humilhar. Estranhamente, logo que o jogo começa você já vira “Commander” e ela perde toda a utilidade. “Vou ficar aqui na nave”, ela diz. Ah, FDP…

dark legion 3

Não se engane: esse monstrão aí morre com alguns poucos tiros de pistola

VISUAL DE PS2

Se algum dia você teve curiosidade de saber como é um jogo de PS2 por dentro, ‘Dark Legion’ é a solução. Tudo no jogo é bem genérico, com texturas pobres, construções repetitivas e mal-acabadas e inimigos copiados de qualquer lugar aleatório (os soldados, por exemplo, lembram os “spartans”, de ‘Halo’). Aliás, aleatório é a palavra pra descrever todo o jogo, inclusive o recheio desse bolo indigesto: os bugs.

Durante as cerca de 3h30 que gastei jogando, perdi as contas de quantos bugs presenciei passeando por aí. Acredito que um bugzinho aqui ou ali é normal, isso acontece nas melhores famílias. Um glitchzinho aqui, uma parede atravessada ali, beleza. Mas tem coisas que não dá pra aceitar. O que dizer de inimigos que ficam travados, não levam dano, mas você precisa matá-los ou então não consegue seguir em frente? Solução: reiniciar do último checkpoint. E um boss que simplesmente não te ataca, mesmo com você fuzilando a cara dele? Solução: matar logo esse diabo pra esse jogo acabar logo. E ainda tem as balas inimigas que fazem curva quando você teleporta para trás dos soldados para tentar pegá-los de surpresa. Solução: não tem, só pegar dano e rir mesmo…

Variando um pouco entre os tiroteios, há momentos em que você precisa destruir portas e estruturas usando explosivos ou abrir portões usando senhas. As senhas costumam ser coisas importantes, que você não revela pra ninguém e guarda em lugares secretos. Mas em ‘Dark Legion’ elas são largadas em qualquer canto, a poucos metros da porta que você precisa abrir. E nem precisa decorar: o próprio robô vai te dizer qual é a senha. Pra que dificultar?

Confira, neste vídeo feito por mim mesmo, o bizarro momento em que o segundo boss do jogo não ataca, mesmo levando várias flechas na cara:

CONTROLES

Para jogar (por sua conta e risco), você usa um par de PS Moves (altamente recomendado) ou o Dualshock 4 (se você jogar desse jeito, é melhor nem jogar). Pode optar pela locomoção livre ou o teleporte. E, surpreendentemente, o teleporte funciona melhor, já que o movimento livre é muito lento. Estranhamente, para você conseguir caminhar mais rápido, você tem que guarda a arma da mão direita ou então abaixá-la.

O giro (rotação) do corpo só pode ser feito graus, não há outra opção. Aliás, o jogo não oferece opção de conforto nenhuma, a não ser o teleporte. Fato bizarro: toda vez que você olha pro lado, vem a mensagem “Correct direction”, mandando você olhar pra frente. É como se você fosse um burro com uma tapadeira que te manda seguir em frente. Aliás, como já vimos, esse jogo te chama de burro o tempo todo.

O game não tem trilha sonora. Por um lado, isso é até melhor, pois fico imaginando que tipo de trilha ele teria. Mas tem efeitos sonoros bem irritantes, com menção especial àquele maldito som de engrenagem do robozinho. As falas da sua companheira de missão (que te larga sozinho na primeira oportunidade) também são bem chatas, assim como as risadas bizarras dos chefes, acompanhadas pelo som insistente da respiração do Darth Vader. Ah, e jogando com os fones do PSVR, o som não sai do lado direito.

As (poucas) falas do game estão em inglês, assim como toda a interface. Mas não será problema nenhum para quem não sabe o idioma, já que a história está diluída em “tablets” espalhados pelo caminho, que você provavelmente não vai querer ler.

Para os mais corajosos, o jogo ainda tem troféu de platina e tem algumas conquistas absurdamente idiotas, do tipo “entre em todas as fases 50 vezes” ou “mate 1.500 monstros”. “Para a nossa alegria”, o jogo apaga o seu save depois que você zera e não há opção de repetir uma missão especifica.

DARK LEGION

Foto de divulgação para mostrar que dá para usar dois fuzis ao mesmo tempo. Note que o jogador não está atirando em nada, só gastando bala.

QUAL É A PARTE BOA?

No meio de tudo isso, o que se salva de ‘Dark Legion’? Bom, você pode “salvar” seus 30 reais se não comprar o jogo. Mas, se você chegou até aqui esperando que eu fale algo bom do jogo, lamento te decepcionar. Tudo o que eu tinha para falar de positivo se esgotou no primeiro paragrafo: ‘Dark Legion’ é um dos poucos FPS do Playstation VR. No entanto, é mal executado em todos os quesitos e acaba sendo pior do que qualquer shooter em que você permanece parado. Diferente do ditado popular, não acho que “o que vale é a intenção”.

Estranhamente, o jogo ainda aparece como “acesso antecipado” na Steam, mesmo após mais de um ano de seu lançamento nos PCVRs. Isso significa que o que estamos jogando é quase uma beta do game, mas acredito que as chances de que ele receba melhorias futuras é mínima, pois a Sony tem como política não disponibilizar jogos nesta condição. Aliás, é incrível como esse “jogo” passou no controle de qualidade da empresa. Oferecer um produto incompleto é um desrespeito com o consumidor.

Pelo menos na Steam o aviso de “jogo com acesso antecipado” é claro e vem em letras garrafais. Diz exatamente o seguinte: “Comece a jogar agora e participe do desenvolvimento do jogo. Observação: Este jogo com acesso antecipado não está completo e pode ou não sofrer alterações no futuro. Caso não esteja com vontade de jogá-lo no estado atual, aconselhamos esperar até que o desenvolvimento esteja mais adiantado.”


VEREDITO

‘Dark Legion’ não é o pior jogo do Playstation VR, mas se esforça bastante pra isso. Há outros na frente na briga por esse troféu, como ‘Weeping Doll’ e ‘Lunar Stone’. É um jogo visivelmente incompleto, cheio de bugs, e compará-lo com qualquer outro FPS é um insulto ao gênero. Infelizmente, nossas opções de tiro em primeira pessoa no PSVR continuarão sendo poucas. Nota: 3/10.


INFORMAÇÕES TÉCNICAS
Título: ‘Dark Legion’ (‘Legião Negra’ na PS Store Brasil)
Estúdio: Ice World/Gamepoch (www.gamepoch.com/yan.html)
Gênero: FPS (first-person shooter)
Data de lançamento: 15 de junho de 2018
Plataformas: Playstation VR (usada neste review), HTC Vive, Oculus Rift e Windows Mixed Reality
Preço: R$ 30,90 (PS Store Brasil) | US$ 9,99 (PS Store EUA)
Idioma: inglês (áudio e interface, sem legendas)
Controles: Dois PS Moves (recomendado) ou Dualshock 4
Jogadores: 1 (sem modo online)
Espaço em disco: 3,53 GB

Assista ao trailer de ‘Dark Legion’

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