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[review] Já pensou em se tornar um astronauta? ‘Detached’ é o mais próximo que você pode chegar

Uma das barreiras para a popularização massiva dos headsets de realidade virtual é um troço chamado “cinetose” (também conhecida como “enjoo de movimento” ou “motion sickness”). Diante disso, vários títulos têm usado recursos para tentar diminuir ao máximo esse problema, com a inclusão de “blinders” (vinheta que reduz seu campo de visão), o abominado teleporte e o giro em graus. ‘Detached’, do estúdio polonês Anshar Studios, vem na direção oposta e traz uma experiência extrema ao Playstation VR e PCVRs (HTC Vive, Oculus Rift e Windows Mixed Reality), desafiando o estômago dos mais experientes jogadores de realidade virtual. É, simplesmente, o mais próximo que pessoas comuns, como eu e você, podem chegar de se tornar um astronauta.

O enjoo de movimento é um assunto sério quando se trata de ‘Detached’. Antes mesmo de comprá-lo, você se depara com o seguinte aviso na página do jogo na Playstation Store: “Atenção! Esteja preparado para uma experiência em realidade virtual que simula variações de velocidade repentinas, queda livre e giros no espaço. Não indicada para jogadores que sofram de enjoo de movimento”. Portanto, ninguém pode dizer que não foi avisado.

Mas quão extremo é ‘Detached’? Vamos colocar em termos comparativos. E os melhores jogos para fazer isso são ‘StarBlood Arena’ (que esteve grátis um tempo na Plus, então muitos jogadores já tiveram acesso a ele) e o multiplayer ‘Eve Valkyrie: Warzone’. Se você já jogou um desses dois e não sentiu enjoo, está pronto para ‘Detached’. Se não, talvez seja o caso de experimentar outros jogos antes – com o tempo e um pouco de dedicação, praticamente todos os jogadores podem se livrar da maldita cinetose.

Os controles de ‘Detached’ se assemelham aos de uma nave, com o diferencial que você está usando um traje de astronauta em um ambiente de microgravidade (erroneamente conhecido como “gravidade zero”, ou “zero-G”). O analógico esquerdo serve para você se mover para os lados, para frente e para trás. No analógico direito você determina a direção – e é aí que mora um dos maiores desafios em termos de cinetose. Você pode girar o corpo para olhar para qualquer direção – e isso, por si só, já vai deixar a cabeça de alguns jogadores girando, literalmente. Outro movimento extremo é a rotação, que serve para você corrigir o seu eixo, usando os botões L1 (para a esquerda) e R1 (para a direita). Esta rotação é imbatível no quesito “cinetose”.

DIFICULDADE E JOGABILIDADE

O fator “movimentação” é tão importante no jogo que ele determina até o nível de dificuldade de ‘Detached’. Assim, temos, do mais fácil para o mais difícil, os modos “Arcade”, “Astronaut” e “Simulation”. O Arcade é, de longe, o mais indicado para os iniciantes. Os outros dois modos simulam a microgravidade de tal maneira que fica extremamente difícil ir do ponto A ao ponto B.

Nos modos mais difíceis, os movimentos exigem uma sutileza e até mesmo conhecimentos de física, para trabalhar com a inércia e o princípio de ação e reação. Qualquer movimento que você faz precisa ser corrigido (compensado) para o lado oposto, devido à aceleração típica da microgravidade. Em alguns momentos, jogando no “Astronaut” ou no “Simulation”, me vi girando interminavelmente, feito a personagem de Sandra Bullock em ‘Gravidade’. Interminavelmente…

De certa forma, esta é a melhor e mais realista experiência que ‘Detached’ pode proporcionar, mas, definitivamente, não é para qualquer um. Mas nada impede que você passe alguns minutos (horas, talvez?) apenas treinando. Por si só, é um desafio que vale a pena e que só a realidade virtual pode proporcionar.

A boa notícia é que você pode alterar o nível de dificuldade do jogo a qualquer momento, sem precisar repetir trechos ou algo do tipo. Voltemos, portanto, ao modo “Arcade”. Nele, os controles são bastante responsivos, mas os efeitos da microgravidade são infinitamente menores. Temos inclusive um botão de freio, que faz com que você pare quase que instantaneamente, tornando-se extremamente útil para evitar colisões. Aliás, você deve se preocupar em não bater o tempo todo: seu capacete é frágil – e após sofrer alguns golpes, é “game over”.

Além de simulador espacial, ‘Detached’ também é um jogo de sobrevivência. Você precisa ficar bastante atento aos seus níveis de oxigênio e combustível (“fuel”). Há alguns itens espalhados pelo caminho que você usa para renová-los. Se chegar a zero, a morte é certa. E apavorante!

‘Detached’ também é um jogo de exploração espacial. Isso significa que, exceto em ocasiões muito específicas, o jogo não vai te mostrar para onde ir ou qual caminho seguir. Você estará exatamente como o personagem do jogo: sozinho e por sua própria conta. As pistas serão dadas apenas em telas de computadores que mostram os sistemas que estão offline e que você precisa religar. Isso resulta em alguns momentos de confusão, nos quais você estará, literalmente, “perdido no espaço”.

LARGADO NO ESPAÇO

‘Detached’ possui apenas um fio de história, contada através de uma animação em 2D que lembra uma história em quadrinhos. Algo dá errado em uma missão considerada “simples” e você é deixado à deriva (“detached”) por seus companheiros. Seu trabalho será reativar os sistemas de uma estação abandonada para tentar se reencontrar com os demais integrantes da equipe. Sobre a animação que conta a história do jogo, aliás, preciso fazer uma observação: a arte conceitual é totalmente diferente da que aparece no material promocional do jogo, incluindo a tela que surge a cada carregamento, com trajes futuristas que lembram ‘Mass Effect’.

As missões do jogo consistem basicamente em se locomover de um ponto a outro, enquanto reativa os sistemas. No decorrer da campanha, você vai recebendo alguns “upgrades”/habilidades em seu traje, que permitirão você usar um propulsor, escudo contra colisões e até mísseis. Eles vão servir para você entrar em tubos de propulsão que te jogam para trás, evitar a morte certa em colisões e mesmo disparar contra drones.

Em determinado trecho (um dos mais difíceis do jogo – e onde, com certeza, é o que mais morri), você é atirado de dentro de uma cápsula e precisa ejetar em seguida para não morrer [confira o gif animado abaixo]. Depois, terá que se esquivar, em alta velocidade, de vários obstáculos pelo caminho, até atingir o outro lado. Outros trechos exigem que você procure “nódulos de energia” (baterias, no bom português) para ativar sistemas específicos. E, em alguns casos, eles podem estar beeeem escondidos.

A campanha dura em torno de 4 a 6 horas, mas a duração dependerá muito de quanto tempo você ficará perdido tentando encontrar respostas. Esse tempo pode ser estendido se você quiser platiná-lo ou mesmo jogar o multiplayer. São dois modos PVP (jogador contra jogador), com disputas 1 contra 1, bem explicados por um vídeo-tutorial. Um deles consiste em uma espécie de corrida e no outro você tem que recuperar recursos antes que o seu adversário. Mas, nas poucas vezes em que tentei jogá-los, não encontrei nenhum oponente. Reforço, contudo, que minha banda larga é péssima e talvez nem merecesse esse nome.

QUESTÕES TÉCNICAS

‘Detached’ possui um visual de encher os olhos. Os gráficos são bastante realistas, mas sofrem com alguns serrilhados típicos do Playstation VR, mesmo jogando em um PS4 Pro. Os problemas incluem ainda texturas brotando quando você se aproxima delas, algo que também devemos colocar na conta da capacidade inferior de processamento do Playstation 4.

Apesar disso, a sensação de estar no espaço é incomparável. Os efeitos de iluminação – especialmente quando você olha em direção ao Sol – e as sombras são incríveis. Aliados a um design de som competente e uma trilha bem pontuada, estes quesitos contribuem para criar uma imersão fantástica.

Apenas um fator de jogabilidade quebra um pouco a imersão e merece ser anotado. No jogo, você não tem braços nem interage ativamente com objetos dos cenários. O jogo te dá apenas um ícone em forma de “mãozinha” para interagir com os painéis/monitores do jogo. Não há alavancas para puxar ou escotilhas para abrir, por exemplo. No entanto, é preciso levar em conta que, tecnicamente, introduzir mãos virtuais em um jogo como esse seria de fato bem complicado – mesmo porque o game só tem suporte ao Dualshock 4, dadas as visíveis limitações de movimentação dos PS Moves, desprovidos de direcionais.

Não há opções de idioma em português. Mas o menu oferece uma opção para quem sente enjoo de movimento mas quer enfrentar o game mesmo assim. É a “eagle eye view”, um “brinder” que reduz seu campo de visão e que pode ser nivelado de 0 a 100. Você também pode desativar a música do jogo e curtir sua trilha sonora preferida usando um pen-drive ou o Spotify.

Senti falta no jogo de um tutorial mais aprofundado. As instruções que ele oferece são bem básicas. Poderia ter um modo de treinamento, inspirado nos testes pelos quais os astronautas reais passam, onde os jogadores pudessem se acostumar à microgravidade e desafiar a cinetose. Fica como sugestão.

VEREDITO

Definitivamente, ‘Detached’ não é para todos no quesito “cinetose”. Mas, fora alguns trechos mais movimentados, a velocidade dele é inferior a games como ‘Eve Valkyrie’ e ‘Starblood Arena’, o que, de certa maneira, pode fazer com que o jogo sirva como uma introdução a quem quer enfrentar experiências mais extremas de realidade virtual. Até o momento, é uma experiência única nessa seara (pelo menos no Playstation VR) e vale cada centavo cobrado por ela. Nota: 9/10 [Excelente]


INFORMAÇÕES TÉCNICAS
Título: ‘Detached’
Gênero: Simulador de exploração espacial e sobrevivência
Estúdio: Anshar Studios (http://ansharstudios.com)
Data de lançamento: 24 de julho de 2018 (PSVR)
Plataformas: Playstation VR (usada neste review), HTC Vive, Oculus Rift e Windows Mixed Reality
Preço: R$ 76,90 (PS Store Brasil) | US$ 24,99 (PS Store EUA) | R$ 47,49 (Steam)
Controles suportados: apenas Dualshock 4
Jogadores: 1 (offline) | 2 (multiplayer online – para jogar online é necessária a PS Plus)
Espaço em disco: 4,48 GB

[Este review foi feito no PS4 Pro, com mídia digital gentilmente cedida pelo Anshar Studios]

Assista ao trailer de ‘Detached’

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